8 de março de 2017

Afinal o que é Doença de Crohn? (PARTE 4 - última)

"A minha vida mudou radicalmente nesse período de tempo e eu mal podia esperar que passassem os 6 meses para poder voltar a ser 'normal' de novo ... ou pelo menos sentir-me como tal."


Dizem que o tempo tende a passar depressa quando as circunstâncias são boas, mas ninguém nos ensina que o tempo tende a passar dolorosamente devagar quando as circunstâncias são más. Os 5 meses e meio que passaram até os médicos decidirem operar-me de novo e meter o intestino no seu devido lugar foram os mais longos da minha vida. Desta última operação apenas me lembro de sentir uma forte picada nas costas antes de adormecer. Era a epidural. Acordei cerca de 10 horas mais tarde na unidade de cuidados intensivos onde permaneci três dias antes de poder voltar ao meu serviço de internamento normal. Três dias sem telemóvel, televisão e com visitas muito limitadas. A primeira coisa que fiz quando despertei completamente da operação foi tocar ligeiramente com a minha mão onde, horas antes, estava o 'ranhoso'. Nem sinal dele. Foi o momento em que me senti mais aliviada em toda a minha vida.

Foi a minha última operação. Desde o dia em que cheguei a casa com 35 pontos na barriga até aos dias de hoje nunca mais tive nenhuma 'crise' de crohn, e por crise quero dizer chegar a um ponto de ruptura em que a única solução é o internamento. Tenho plena consciência que não me vi definitivamente livre da doença, mas sei que, neste momento, está adormecida e espero que se mantenha assim o máximo de tempo possível. Mas não pensem que é fácil gerir certas e determinadas situações da minha vida sendo doente de crohn. É extremamente difícil controlar o meu peso, uma vez que, geneticamente, sou e sempre serei uma pessoa magra. Com o cronh, se adoecer e, por consequência, se comer menos que o habitual, perco peso que é uma coisa estúpida. É como estalar os dedos e puff ... menos 5 kilos. Já para não falar da quantidade de alimentos que 'mexem' imenso com o meu intestino e que posso apenas comer em casa, muito esporadicamente (fácil adivinhar o porquê). Mas se tiver de escolher qual é (ou foi) assim o pior lado de ter doença de crohn eu escolho ter de passar vários momentos com o cabrão do Humira. O Humira é um tratamento (inovador, segundo o Dt. Jaime) que previne as inflamações no intestino. É, por palavras mais explícitas, uma injeção incorporada numa espécie de 'caneta' que o doente leva para casa e injeta em si mesmo. Eu e o Humira temos 'encontro marcado' de 2 em 2 semanas, e este 'relacionamento' já dura há mais de um ano. Posso dizer que o início não foi nada famoso. Uma injeção que era suposto ser dada em menos de 10 segundos, eu demorava cerca de uma hora para ganhar coragem para carregar no botão vermelho da caneta. Era uma coisa que eu não conseguia mesmo controlar. Foram várias as vezes que pedi ajuda ao meu pai e era sempre uma guerra pegada cá e casa: queria ser ele a dar-me a injeção de modo a ser mais fácil para mim, mas eu, teimosa como um raio, nunca deixava. E cada semana que passava mais difícil ficava. Mas, desde que a caneta foi alterada de modo a deixar a injeção completamente indolor, as coisas tornaram-se mais fáceis. Muito-mais-fáceis (hoje em dia consigo ganhar coragem para dar a injeção em 15 minutos ... um tempo record)!!!

O que fica por dizer? Nada de especial. Apenas que sou uma miúda de 24 anos absolutamente normal, com uma lista interminável de objetivos de vida e sonhos por realizar. Não tenho medo n-e-n-h-u-m do Crohn e, se um dia tiver de voltar a passar por tudo outra vez, eu vou cá estar para o fazer com toda a positividade e força do mundo. Posso dizer também, para concluir, que tudo o que aconteceu deu-me uma nova 'visão' da vida, no quão frágil ela realmente é. De toda esta aventura ficam, para já, a meia dúzia de cicatrizes que tenho na barriga e a noção de que, apesar de tudo isto, continuo a achar que sou a miúda mais sortuda do mundo.


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PARTE 1
PARTE 2
PARTE 3

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