10 de junho de 2016

Crónicas de uma universitária #1




Este semestre pode muito bem ter sido o pior semestre da história da minha vida. Ás vezes ponho-me a pensar no porquê de me ter passado pela cabeça meter-me numa licenciatura em linguística (aka Ciências da Linguagem). É que a porra deste curso é complicado para cacete, há que ter essa noção. Claro que na perspetiva dos meninos da economia, medicinas, direitos e por aí fora, um curso destes 'é caca', 'facílimo', 'um curso de gente burra'. Pois. Queria ver vocês a classificarem orações ao pormenor, saberem a composição morfológica das palavras ou a fazerem transcrições fonéticas e diagramas em árvore de frases complexas. Até choram!! Eu pelo menos choro, e não é pouco

Há duas semanas, mais coisa menos coisa, ia dando em doida. Então não é que dois professores meus, das cadeiras mais difíceis do curso, tiveram a ideia suicida de meterem os testes na mesma semana? Eu precisava, pelo menos, de duas semanas de antecedência para estudar para UM deles. Ter os dois com praticamente um dia de intervalo um do outro foi como ir para a guerra e sair de lá sem pernas e com uma bala espetada no cérebro. Foi horrível. Um sacrilégio. Sinceramente não sei como ainda tenho estes mini pulsos intatos. Foi a semana toda, de sexta a sexta, com a cabeça enfiada em apontamentos, dicionários, gramáticas e PDF's sem me poder distrair sequer com o ginásio ou com as minhas amigas e namorado. Posso até mesmo dizer que não me lembro nunca, jamais, em tempo algum na minha vida de ter estudado tanto. E mesmo assim consegui olhar para os testes com estes dois olhos que um dia a terra há-de comer e ter a sensação de não saber nada. "Estou fodid#", pensei eu em bom português! Só me revia a mim própria, com 74 anos, placa nos dentes e 56 netos já com doutoramento a tentar terminar a minha licenciatura. E tenho quase a certeza que, nessa altura, estaria ainda nas aulas de semântica a levar com as ambiguidades, o escopo ou a porcaria do tempo verbal. Cheguei a casa de rastos, a fazer contas do género "ora bem, se conseguir acabar semântica daqui a 2 anos, fico com Morfologia por fazer e talvez consiga acabar a minha licenciatura ... lá para os 30 anos". Eis as minhas perspetivas para o futuro

Mas então não é que, sem saber bem como, consegui passar a ambas as cadeiras? É verdade! Ainda estou para perceber como é que uma coisa destas me foi acontecer. Como assim consegui sobreviver à guerra, sem pernas e com uma bala na cabeça e tudo? Estou-me a sentir tão 'Jon Snow' neste momento (os fãs de game of thrones vão entender), é exatamente como morrer e voltar à vida depois de um milagre qualquer. Tal e qual. Claro que 'the winter is coming' e com ele todo um terceiro ano 'dark and full of terrors'. Mas uma coisa é certa: com semântica e morfologia feitas quase não preciso de me preocupar com mais nada



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