17 de abril de 2015

Como é possível?




Foi a reportagem mais chocante que vi em toda a minha vida. Talvez por não ter a noção exata do caminho que o nosso país atualmente percorre, ou talvez por eu mesma ter sido, durante quase um ano da minha vida, testemunha desta desumanidade. Quantos de vocês tiveram a oportunidade de ver atentamente a reportagem "1 hora e 35 minutos", da Ana Leal, que passou no jornal da noite, na TVI, no dia 13 de Abril? (vejam-na aqui)

Eram 3 da manhã quando, casualmente, encontrei a reportagem no Facebook Oficial da TVI e durante aqueles 33 minutos o meu corpo paralisou. Há medida que a reportagem ia avançado, o meu coração aumentava os batimentos e a respiração tornava-se mais intensiva. Eram 3 da manhã e eu percepcionei que os hospitais do nosso país, o único local onde nos podemos dirigir em casos urgentes de saúde, são, como dizem na reportagem, um verdadeiro matadouro. Esta palavra chocou-me por ser tão bem aplicada no contexto em questão. E não, desta vez não se trata de uma reportagem carregada de exagero e pressuposições sem nexo da jornalista em questão, como foi no caso do Meco. Esta reportagem descortinou sem qualquer dó nem piedade uma verdade absoluta e inconveniente. Pois hoje falo-vos da minha experiência, o meu testemunho deste que me atrevo a chamar de crime contra os direitos humanos

Desde Fevereiro de 2013 a Novembro do mesmo ano as minhas idas ao serviço de urgência do Hospital São José eram frequentes. No centro de triagem queixei-me do mesmo, de todas as vezes que lá fui: dores agudas na zona do abdómen, vómitos constantes, dificuldade em andar. De todas essas vezes davam-me uma pulseira verde (que significa pouco urgente) e eu limitava-me a pagar os 21 euros e 60 cêntimos do episódio de urgência e a sentar-me na sala de espera, sobrelotada de gente, durante 4 a 6 horas. Depois de horas à espera, o médico atendia-me em 10 minutos, diagnosticando-me de todas essas vezes uma gastroenterite. Durante esse 9 meses nunca fui para além da triagem, do consultório do médico e das supostas gastroenterites frequentes, até ao dia que, pelo mesmo motivo, dirigi-me mais uma vez às urgência e deixei o desespero falar mais alto: disse que não admitia que me voltassem a fazer esperar 6 horas para me dizerem que tenho mais uma gastroenterite, passarem-me uns medicamentos que não faziam qualquer efeito e mandarem-me embora. Foi neste dia que conheci aquela que ia ser a minha médica durante uma jornada que, até aquele momento, julgava ser impossível. Mandou-me para uma consulta de Medicina Interna no Hospital Curry Cabral. E foi uma sucessão exata do mesmo: horas intermináveis à espera da minha vez para ser atendida por uma médica estagiária que me mandou para um consulta de psicologia, alegando que as dores que sentia eram psicológicas. Na altura limitei-me a ir com a maré e não a remar contra a corrente, mas era ridículo demais para ser verdade. Não cheguei a ir à consulta de psicologia que seria uma semana depois porque, entretanto, voltei a ter as mesmas dores (das quais me queixei durante 9 meses) mas mais agonizantes. Voltei ao serviço de urgência do São José sem quase conseguir manter-me de pé e esta foi a primeira vez que me deram a pulseira amarela (que significa urgente) e levaram-me para o chamado 'balcão dos amarelos', numa maca. Este balcão é uma sala, tal como aquelas que podemos ver na reportagem, com macas dispostas quase umas em cima das outras, onde é quase impossível qualquer médico conseguir chegar ao seu doente e onde podemos ver doentes queixosos e desesperados, a tirar cateteres e a espirrar sangue, ou doentes bêbedos a quererem-se levantar e ir embora pelo seu próprio pé, assim como podemos ver também que, durante esses momentos de pura desatenção, as enfermeiras estão no Facebook ou a pesquisar o site da Seaside para ver sabrinas. Nesse mesmo dia, 11 de Novembro para ser mais específica, demoraram cerca de 2 horas só para me levarem à sala de raio-x. Lembro-me de, na altura, e apesar das dores agonizantes que sentia, conseguir ver o lado positivo daquele momento: ao menos, daquela vez, estavam a tentar fazer algo mais que me diagnosticarem gastroenterites para despacharem mais um doente. Mas o pior veio depois. Nesse mesmo dia fizeram-me uma operação, onde entraram com uma câmara através de um buraco feito no meu umbigo para verem realmente o que se passava com o meu abdómen. Após a operação fui transferida para o Hospital Curry Cabral onde fiquei internada uma semana. Uma das piores semanas da minha vida, apesar de, neste momento e depois da entrevista em questão, me sentir privilégiada em relação a outros doentes, doentes esses com situações bem mais graves que a minha e que acabam por morrer num corredor de um hospital, rodeados de pessoas mas, no entanto, sozinhos na morte

Descobri que tinha Doença de Cronh. Uma doença que não tem cura e com a qual terei de viver para o resto da minha vida. Mas continuei a sorrir. Afinal sempre tinha alguma coisa, e essa 'coisa' tinha sido finalmente desvendada. Em Dezembro, mesmo antes do Natal, voltei a estar internada. Concluíram que o diagnóstico tardio da minha doença tinha provocado efeitos graves no meu intestino e teria de começar urgentemente com um tratamento com corticóides e afins. Fiquei internada no serviço de gastroenterologia do Hospital dos Capuchos. Este internamento foi repentino e ordenado pelo médico que segue a minha doença. Quando lá cheguei, não havia cama para mim. Fiquei 8 horas sentada num cadeirão no meio de uma das salas do internamento, ligada a soro e antibióticos, sem poder sequer ir à casa de banho e completamente abandonada. As empregadas da limpeza passavam pela sala e abanavam o cadeirão com tamanha brutalidade que, numa dessas vezes, acabaram por deixar cair o 'carrinho' que tinha o saco do soro para o chão. A senhora da maca que supostamente iria ser para mim teve alta ás 19 horas. Continuei no cadeirão à espera que se lembrassem de mim. Apenas ás 23 horas alguém se dirigiu à cama e a desinfetou para que eu a pudesse utilizar. 4 horas depois, quando poderia ter sido feito de imediato. Fiquei quase duas semanas internada no serviço. A sala tinha 6 camas e estava sempre cheia: quando algum paciente tinha alta, já lá estava outro para ocupar a respetiva cama. Tinha uma senhora na cama ao meu lado que estava quase na mesma situação que eu: para além do Alzheimer diagnosticado há 7 anos, a senhora vomitava tudo o que comia. Estava, tal com eu tinha estado, há um ano sem qualquer diagnóstico certo. Numa das vezes em que a senhora estava aflita para vomitar e não tinha nenhuma arrastadeira junto dela, eu tomei a liberdade de carregar no botão para chamar uma enfermeira. A enfermeira demorou cerca de 5 minutos a chegar à nossa sala, quando o que me disseram foi que, ao carregar no botão, viria alguém de imediato.A enfermeira disse à senhora que iria buscar uma arrastadeira ... demorou mais de 10 minutos a voltar com a mesma e, quando chegou, a senhora já teria vomitado a cama. Fiquei indignada quando a enfermeira se sentiu no direito de 'refilar' com a doente por esta não ter 'esperado para vomitar'. Estava indignada e queria sair dali. Havia ainda uma auxiliar de limpeza que estava encarregue de mudar fraldas as doentes. Durante as duas semanas em que estive naquele serviço apanhei-a duas vezes a fazer o turno da noite ... e dessas duas vezes vi-a a tratar mal os doentes mais idosos, a fazer as coisas à pressa para ir para o computador que estava no corredor jogar ao Solitário, já para não falar das horas que passava ao telemóvel enquanto tinha nas mãos pacientes que requeriam 100% de atenção e cuidado. No dia em que me deram alta tive a liberdade de, num inquérito anónimo que me pediram para preencher sobre a qualidade do internamento, de expôr todo estes acontecimentos e de assinar o meu nome por baixo. Achei inadmissível.

Nem um mês tinha passado quando dou por mim de novo nas urgências, mas aquela vez seria a pior de todas. Entrei pela porta das urgências a tremer descontroladamente, a vomitar um tipo de 'ranho' esverdeado, com dores completamente insuportáveis, capazes de levar qualquer um à loucura. Demoraram 15 minutos para me chamarem só para a triagem. Na triagem deram-me de novo a pulseira amarela, mesmo com a indicação de que tinha uma doença crónica ativa. Nada disso me serviu. Espetaram comigo de novo numa maca e mandaram-me recambiada para a sala dos amarelos de novo, e de novo a sala estava a rebentar pelas costuras. Aquele foi o único momento da minha vida em que gritei e gemi num hospital. Mas era tudo o que me apetecia fazer, pois não estava a conseguir aguentar as dores. Ainda assim demoraram cerca de 40 minutos a darem com a minha presença e desespero. Veio uma médica, nova, que me apalpou a barriga e que foi chamar a especialista na área. Mais 15 minutos de puro sofrimento. A especialista volta a apalpar-me a barriga, e no meio de toda a agitação que se fazia sentir naquela sala sobrelotada de gente, só consegui ouvir "o teu intestino rasgou, vais ter de ser já operada". A enfermeira, uma das que estava parada ao computador, demorou uns longos e sofredores 20 minutos para me meter um cateter com paracetamol forte para aliviar as dores e soro. No meio da confusão, acabou por me furar a veia duas vezes no sítio errado, como se já não me bastasse ter um intestino rasgado dentro de mim.

Depois da operação fui novamente transferida para o hospital dos Capuchos, mas dessa vez para o serviço de Cirurgia 2, o único serviço que, ainda apesar das suas falhas, e algumas delas graves, me pareceu minimamente organizado e espaçoso o suficiente para as 50 camas que ali estavam. E é ao pensar nesse serviço onde estive duas vezes que me pergunto

"como é possível numa sala em que cabem 18 macas estarem 70? E para essas 70 macas, existirem 3 enfermeiros e um médico? UM MÉDICO!!"

O mais grave no meio de toda esta tristeza é que, apesar do serviço precoce a que tive direito, ainda acabar por me sentir privilegiada em relação aos que moram fora de Lisboa e que apenas têm acesso a um único hospital, hospital esse que nem as condições e serviços mínimos possuí. Macas abandonadas no meios dos corredores? Doentes urgentes que esperam 5 horas para serem vistos por um médico? 2 enfermeiras para 70 doentes?

É surreal. Nós que somos um país da União Europeia; um país que fala em progresso, modernização e desenvolvimento; um país dito desenvolvido, que constrói TGV's, submarinos, que apoia fortemente o Turismo, a Modernização das escolas e da Tecnologia, que tem como capital uma das melhores cidades da Europa ... como é possível não existirem os devidos e mais básicos cuidados de saúde para o povo português? Um povo envelhecido na sua maioria, que leva às costas uma vida de trabalho e sacrifícios e que tem o direito à saúde, a uma saúde que levou uma vida a pagar com impostos ao Estado! Como é possível que, num país como o nosso se morra num serviço de urgência, á espera de ser atendido? É absolutamente inadmissível, desumano e surreal. E é verdade quando, na reportagem, dizem que, em termos de cuidados de saúde, estamos num país de terceiro mundo. POIS ESTAMOS MESMO!! É por causa destas coisas que eu tenho vergonha deste país, governado por uma cambada de gente hipócrita que enche os bolsos à custa do trabalho árduo dos outros. 

Agora, é a minha vez de perguntar:
" COMO É POSSÍVEL?" 






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