2 de março de 2015

Obrigada PPE por me fazeres feliz.



Um dos primeiros trabalhos da minha (até agora) cadeira preferida deste 2º semestre, PPE (Produção do Português escrito) foi escolher um de três quadros, propostos pela professora, e partir dessa escolha para criarmos um texto. A professora, para além dos quadros, deu a escolher aos alunos 3 tipos de exercícios: 1) descrever o quadro a alguém que não o conhecesse; 2) imaginar que somos uma personagem dentro do quadro e contar uma história e, por último, 3) fingirmos que somos
críticos de arte e escrevermos para os leitores do nosso jornal. Claro que o primeiro pensamento que me ocorreu foi; "esta é a minha praia, abram alas". 

Os exercícios 1 e 3, para mim, tinham uma facilidade acrescida: é mais ou menos o tipo de escrita que faço aqui pelo blog e à qual estou mais habituada e confortável. Mas querendo superar-me decidi arriscar e escolhi dar asas à minha imaginação com o exercício 2. O trabalho foi feito, entregue e amanhã, terça-feira, a professora prometeu dar feedback e confesso que estou curiosa. O texto que escrevi tem as suas particularidades, e das duas, uma: ou a professora vai adorar ou a professora vai odiar. Acho que não há meio termo

Vou partilhar com vocês antes de qualquer tipo de avaliação, primeiro porque gostei do que escrevi e senti-me bem ao fazê-lo; segundo porque adoro receber criticas construtivas para poder evoluir. Por isso, caso queiram ou vos apeteça fingir que são críticos textuais por 5 minutos, estão à vontade. O quadro sobre o qual escrevi é o que está no inicio deste artigo. Vamos lá ...

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   "Ainda me lembro daquela tarde húmida de inverno. O sol tentava (e de vem em vez conseguia) espreitar para lá das cortinas de nuvens que preenchiam o céu; os campos encontravam-se verdes e infinitos e a árvore completava a paisagem, impune e vistosa como sempre me recordei dela. Dez anos se tinham passado desde a última vez que visitei a casa dos meus avós e, no momento em que lá cheguei, tive a inquietante sensação de que nada se tinha verdadeiramente alterado. Excepto o avô João. O homem que outrora corria pela casa com a sua neta de 12 anos e o seu cão Mico, depois de uma aula de pintura, tinha desaparecido. Era como o sol daquela tarde: tentava reaparecer por detrás das nuvens negras. Desde a morte da Avó Celeste (cancro no pulmão), o meu avô substituiu o pincel e a paleta pela garrafa de vinho e as bebedeiras frequentes deixaram para trás cada vez mais telas em branco. Poderia ter vindo a ser um pinto de elite se não tivesse decidido dedicar-se a cem porcento ao casamento com a avó Celeste. Tudo o que via no homem que era o meu melhor amigo antes de me mudar para Londres era desespero. Talvez saudade. Talvez amargura por a minha avó ter partido tão cedo.

   Quando me dirigi ao seu abraço, foi como se voltasse a ter 12 anos de novo, como se nunca tivesse partido. “Estás linda Ana”, disse-me ele, e aquelas palavras encheram-me o coração. Apesar do problema com o álcool, a casa permanecera intacta, tal como a avó Celeste deixara toda a sua vida: o jarro de flores, colhidas todas as manhãs, metricamente no centro da mesa; a cozinha imaculada com um cesto na bancada, sempre cheio de fruta fresca; as cortinas abertas e elegantemente presas nas argolas laterais; as janelas meio abertas que davam um ar fresco à casa e o cheiro a jasmim, o cheiro preferido da avó. Foi o jasmim que me fez perceber que manter todos estes pormenores faziam o meu avô sentir-me mais perto dela. Depois do lanche e de um passeio pelo jardim, pedi ao meu avô para me levar ao quarto de pintar. Quando tinha doze anos, passava lá grande parte do tempo. Adorava pintar, talvez tenha sido por isso que frequentei a escola de artes em Londres. O meu avô sempre me disse: “Annie, pintar leva-nos a explorar outros mundos sem sequer sairmos deste quarto”. E eu concordava com ele, concordava com ele em tudo. O quarto de pintar estava, tal como o resto da casa, imaculada: todas as caixas de tintas, pincéis, pequenas telas e paletas estavam ordenadamente arrumadas, em fila, na estante velha de madeira negra no canto do quarto; a mesa grande, onde o meu avô lia sobre os grandes pintores dos séculos passados, estava limpa e organizada, e os bancos, debaixo da mesa, estavam velhos e com a tinta a descascar; as telas brancas, ainda por pintar, estavam dispostas, uma atrás da outra, entre a mesa e a parede e os quadros feitos por mim há 10 anos estavam pendurados em todas as paredes verdes do quarto. Apenas uma coisa me pareceu diferente depois de dez longos anos: a janela com vista para a grande e imponente árvore. Olhei atentamente, e depois de o fazer outras cinco ou seis vezes, esta continuava a não fazer sentido. Podia observar que, debaixo da janela, estavam três pés, três pés de um cavalete, como se toda a janela fosse uma pintura perfeita. Parecia que tinha entrado numa outra dimensão, como se nem o chão castanho que estava a pisar naquele momento fosse real. Parei um segundo e cheguei à conclusão que tinha certezas de ter havido ali, naquilo preciso local, uma janela verdadeira, mas foi quando dei uns passos para a direita que percebi que estava ali realmente uma janela verdadeira … e um pedaço dela estava perfeitamente retratado num quadro.

   Enquanto me fascinava com o quadro e com toda aquela espectacularidade quase irreal, ouvi a voz suave do meu avô à entrada da porta: “Acabei de o pintar no dia em que a tua avó descobriu a doença, estava um dia como o de hoje. Quando passo por aqui e vejo apenas uma janela e três pernas de um cavalete gosto de pensar que a tua avó está aqui. Parece que ela hoje também nos veio visitar”. Na altura não percebi, agora, oito anos mais tarde, consigo perceber. Quando o meu avó faleceu, há dois anos, penso que foi este quadro que me fez mudar de Londres para esta grande casa, onde outrora os meus avós foram tão felizes, e onde hoje o sou com os meus filhos Martim e Matilde. O quadro permaneceu intocável, tal como o meu avô o deixou, assim como o quarto de pintar e a velha árvore. E é quando o quadro encontra um equilíbrio perfeito com a paisagem do lado de fora da janela que eu percebo que não estou sozinha: os meus avós estão aqui comigo também. Vieram visitar-me! " 




1 comentário:

  1. Até fiquei tolo agora... Mas que escrita fantástica! Meu Deus, não sabia que tinhas isso dentro de ti! Acho que o facto deste post ter um estilo de escrita mais formal e não tão casual, como a maioria dos teus posts (pelo menos os que eu li) têm, fez com que pudessemos de facto apreciar o teu "eu escritora" em todo o seu esplendor. Esta é a tua praia, sem dúvida nenhuma!

    PPE é, de facto, uma cadeira que no faz crescer como escritores, e que nos faz encarar novos desafios que normalmente não seriam encarados por nós. A obrigação de escrever é algo que eu repudio, pois eu escrevo o que sinto quando o sinto, e escrever obrigado é das piores coisas para um escritor/autor/bloguista. No entanto, para esta cadeira, escrever obrigado é um gosto enorme, pois estás a desafiar-te a ser melhor do que és, e isso cria tantas pequenas mudanças... (Cega será a prof se não reconhecer o excelente texto que aqui está!)

    Mais uma vez, os meus parabéns por este texto. Mereces todos os louvores possíveis!

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