22 de abril de 2017

Vamos falar sobre o derbi!

A vantagem de ter um blog, mesmo meio abandonado de momento, é de ter um sítio mais ou menos arranjadinho onde posso 'vomitar' em palavras tudo aquilo que me apetece. Pois agora tenho muito para dizer, e sim .. é sobre o dérbi (que está a 3 horas de começar)!

Quando vi, no meu horário de trabalho, que no dia de hoje tinha um FO (de folga) no meu nome nem quis acreditar na minha sorte. Obviamente que não fiz uma lista interminável de planos para hoje porque o meu plano para hoje é só um: ver o dérbi. E dentro desse grande plano estava claro incluído o zapping pelos canais de notícias que acompanham sempre este tipo de jogos grandes durante a tarde. Dérbi é dérbi, seja no estádio ou em casa. Soubesse o que sei agora e em vez de me estar para aqui a enervar sozinha com a televisão estava a meter o meu sono em dia. Para já tenho a dizer que o 'jornalismo' (note-se o parenteses) feito em Portugal é deplorável! Não dá para aguentar. Nos meus tempos de menina ingénua cheguei a dizer várias vezes que queria ser jornalista. Hoje em dia não sei onde andava com a cabeça para dizer uma barbaridade dessas. É absolutamente desleal a forma como estas pessoas ditas 'jornalistas' intitulam notícias como as que inundam as redes sociais desde as 10 da manhã de hoje. Coisas como "Adepto do Sporting assassinado junto ao Estádio da Luz". Todos nós conseguimos perceber que tipo de mensagem implícita aqui se encontra. Alguém teve a ideia peregrina de meter 'Adepto do Sporting' e 'Estádio da Luz' na mesma frase e ainda acrescentar 'assassinato' lá pelo meio e criam o pânico. Fomentam o ódio! Eles sim criam o chamado 'clima de tensão' nos jogos de 'risco'! Á medida que as horas foram passando já se falava em 'confronto entre claques', confronto esse que, se existiu, implica que estavam, de facto, ambas as claques nas imediações do estádio da luz! E sim, esta frase também tem um significado implícito, e é muito fácil perceber qual é. 

Mas não foi o bombardeamento de títulos deste tipo o que mais me está a incomodar. A forma como estes 'jornalistas' conseguem ser evasivos e diretos ao mesmo tempo é algo fascinante. Falando da carta do Bruno de Carvalho, onde o mesmo convida o presidente Luís Filipe Vieira para assistir consigo ao jogo na Tribuna do estádio. Sobre este assunto, aparecem títulos deste tipo: "Bruno de Carvalho convida Luis Filipe Vieira para a tribuna de honra". Lindo. Maravilhoso. Que ser humano fenomenal. Luis Filipe Vieira recusa o convite e o que podemos ler é isto: "Luis Filipe Vieira recusa convite de Bruno de Carvalho". Que mauzão sem princípios! Está feita a notícia. Bruno de Carvalho, simpático, carregado de boas intenções, convida o presidente do Benfica para mostrar que, apesar daquela cara de merd# e daquela voz insuportável, até consegue ter fairplay e meter os interesses do futebol acima de quaisquer outros. Luis Filipe Vieira cag#ndo-se para o fairplay manda o Bruninho ir pastar vacas. E, durante cerca de dez minutos um jornalista pergunta aos adeptos do Sporting coisas do tipo: "Luis Filipe Vieira recusou o convite de Bruno de Carvalho. O que acha desta atitude do presidente do Benfica?", ao que os adeptos respondem: "Não acho nada bem" ou "Devia ter aceite para bem do futebol". B-A-L-É-L-A-S!!

Vamos lá desmistificar isto. O que o Sr. Bruno de Carvalho disse, entre outras coisas, foi (e passo a citar):

"Bem sei que enquanto presidente, e como oportunamente foi denunciado por mim, nos últimos 4 anos a sua atitude não tem sido a mais adequada em acontecimentos similares ou na evocação dos mesmos por parte de adeptos do clube a que preside, mas tenho sempre esperança que a partir deste momento altere a sua visão sobre o assunto.

Tenho confiança na capacidade de regeneração do ser humano. Espero por isso que, depois de os acontecimentos devidamente investigados, e se se concluir que por detrás destes factos está um crime perpetrado por um adepto do Benfica, dê um passo nesse sentido e que, finalmente, se demarque de forma pública e sem reservas, de criminosos e de claques ilegais.

Na expectativa de que subscreva o conteúdo integral desta carta e de melhor lhe demonstrar que sei bem, nesta luta contra a violência no desporto, que nem todos têm demonstrado vontade e empenho neste combate que tem que ser prioritário, gostaria de o convidar a assistir ao jogo de hoje na Tribuna do Estádio Alvalade XXI."


É a este conjunto de frases que o sr. Bruno de Carvalho e os jornalistas chamam de "convite"? Tenho cá para mim que isto chama-se provocação. Chama-se 'confronto' de palavras. Chama-se uma tentativa de 'ficar bem na fotografia' sem parecer muito óbvio. Chama-se falar de 'respeito mútuo' e 'fairplay' quando nenhuma dessas palavras entra no leque de vocabulário daquele que é o indivíduo que insiste em partir sempre contra o Sport Lisboa e Benfica! E a resposta do (grande) Luis Filipe Vieira mostrou, uma vez mais, como se deve comportar um presidente de um grande clube como o Sport Lisboa e Benfica.

Quando existe uma intenção clara de adoptar os valores de fair play e do respeito mútuo como prática diária e quando se pretende partir para um processo construtivo de relações entre clubes, tal deve ser feito, através de gestos genuínos que não partam de convites carregados de juízos de valores prévios com claras intenções de levar a que o presente convite nunca pudesse ser aceite nos termos em que foi formulado.


Foi o Presidente do Sporting Clube de Portugal como publicamente assume, que adoptou como estratégia o confronto diário com a instituição Sport Lisboa e Benfica.



E hoje, num momento que requer de todos o máximo cuidado e rigor e em que um lamentável acontecimento ocorre, ao invés de procurar de forma sóbria não confundir os incidentes ocorridos esta madrugada com o jogo que se inicia daqui a pouco, tal como as próprias forças de segurança publicamente fizeram questão de expressar, promove um convite com pressupostos acusatórios que obviamente é a forma errada de se apelar ao bom senso, moderação e são convívio entre todos."

Acrescento, para terminar, que abomino este tipo de violência no futebol, quer seja física ou verbal. Gostos são gostos, e gostos não se discutem. O futebol é lindo demais para que lhe apaguem o brilho com atos de violência. Seja da parte de que clube for. De que claque for. De que cor de camisola for. 




8 de março de 2017

Afinal o que é Doença de Crohn? (PARTE 4 - última)

"A minha vida mudou radicalmente nesse período de tempo e eu mal podia esperar que passassem os 6 meses para poder voltar a ser 'normal' de novo ... ou pelo menos sentir-me como tal."


Dizem que o tempo tende a passar depressa quando as circunstâncias são boas, mas ninguém nos ensina que o tempo tende a passar dolorosamente devagar quando as circunstâncias são más. Os 5 meses e meio que passaram até os médicos decidirem operar-me de novo e meter o intestino no seu devido lugar foram os mais longos da minha vida. Desta última operação apenas me lembro de sentir uma forte picada nas costas antes de adormecer. Era a epidural. Acordei cerca de 10 horas mais tarde na unidade de cuidados intensivos onde permaneci três dias antes de poder voltar ao meu serviço de internamento normal. Três dias sem telemóvel, televisão e com visitas muito limitadas. A primeira coisa que fiz quando despertei completamente da operação foi tocar ligeiramente com a minha mão onde, horas antes, estava o 'ranhoso'. Nem sinal dele. Foi o momento em que me senti mais aliviada em toda a minha vida.

Foi a minha última operação. Desde o dia em que cheguei a casa com 35 pontos na barriga até aos dias de hoje nunca mais tive nenhuma 'crise' de crohn, e por crise quero dizer chegar a um ponto de ruptura em que a única solução é o internamento. Tenho plena consciência que não me vi definitivamente livre da doença, mas sei que, neste momento, está adormecida e espero que se mantenha assim o máximo de tempo possível. Mas não pensem que é fácil gerir certas e determinadas situações da minha vida sendo doente de crohn. É extremamente difícil controlar o meu peso, uma vez que, geneticamente, sou e sempre serei uma pessoa magra. Com o cronh, se adoecer e, por consequência, se comer menos que o habitual, perco peso que é uma coisa estúpida. É como estalar os dedos e puff ... menos 5 kilos. Já para não falar da quantidade de alimentos que 'mexem' imenso com o meu intestino e que posso apenas comer em casa, muito esporadicamente (fácil adivinhar o porquê). Mas se tiver de escolher qual é (ou foi) assim o pior lado de ter doença de crohn eu escolho ter de passar vários momentos com o cabrão do Humira. O Humira é um tratamento (inovador, segundo o Dt. Jaime) que previne as inflamações no intestino. É, por palavras mais explícitas, uma injeção incorporada numa espécie de 'caneta' que o doente leva para casa e injeta em si mesmo. Eu e o Humira temos 'encontro marcado' de 2 em 2 semanas, e este 'relacionamento' já dura há mais de um ano. Posso dizer que o início não foi nada famoso. Uma injeção que era suposto ser dada em menos de 10 segundos, eu demorava cerca de uma hora para ganhar coragem para carregar no botão vermelho da caneta. Era uma coisa que eu não conseguia mesmo controlar. Foram várias as vezes que pedi ajuda ao meu pai e era sempre uma guerra pegada cá e casa: queria ser ele a dar-me a injeção de modo a ser mais fácil para mim, mas eu, teimosa como um raio, nunca deixava. E cada semana que passava mais difícil ficava. Mas, desde que a caneta foi alterada de modo a deixar a injeção completamente indolor, as coisas tornaram-se mais fáceis. Muito-mais-fáceis (hoje em dia consigo ganhar coragem para dar a injeção em 15 minutos ... um tempo record)!!!

O que fica por dizer? Nada de especial. Apenas que sou uma miúda de 24 anos absolutamente normal, com uma lista interminável de objetivos de vida e sonhos por realizar. Não tenho medo n-e-n-h-u-m do Crohn e, se um dia tiver de voltar a passar por tudo outra vez, eu vou cá estar para o fazer com toda a positividade e força do mundo. Posso dizer também, para concluir, que tudo o que aconteceu deu-me uma nova 'visão' da vida, no quão frágil ela realmente é. De toda esta aventura ficam, para já, a meia dúzia de cicatrizes que tenho na barriga e a noção de que, apesar de tudo isto, continuo a achar que sou a miúda mais sortuda do mundo.


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PARTE 1
PARTE 2
PARTE 3

26 de janeiro de 2017

Afinal o que é Doença de Crohn? (PARTE 3)

Parte 1 - aqui
Parte 2 - aqui



" Foram dias muito cansativos e, acima de tudo, carregados de ansiedade. A verdade é que ninguém me prestava esclarecimento algum sobre a operação, sobre o que aconteceu, sobre o que escondia aquela enorme ligadura e aquele saco que estavam na minha barriga. Na altura não percebi o porquê de tantas respostas evasivas às minhas perguntas ... hoje percebo. "



Não há vida mais rotineira do que a vida de hospital. Todos os dias, às 6 e meia da manhã, as enfermeiras acordam os doentes para medirem a temperatura e a tensão. Por volta das 7 e meia começam os banhos e às 9 vem o primeiro pequeno-almoço da manhã. Para os que pensam que estar internado no hospital significa descanso e horas perdidas a meter o sono em dia, posso-vos dizer que estão incrivelmente enganados. Eu era aquela pessoa que, durante a noite, não pregava olho. Ou era por causa da luz da casa de banho que me fazia confusão, ou era porque ouviam-se barulhinhos aqui e ali e eu, sem querer, captava tudo. Durante a manhã e à tarde tentava fechar os olhos, mas num hospital, durante o dia, há todo um leque de coisas a acontecer: ou recebes visitas do médico e dos familiares, ou tens de tomar um antibiótico qualquer, ou alguma enfermeira vem picar-te pela milésima vez. De todas as vezes que estive internada saí de lá completamente exausta, tanto fisicamente como psicologicamente.

 Numa dessas manhãs em que estava a tentar meter um pouco do meu ilimitado plafond de sono em dia, fui delicadamente acordada por uma enfermeira que nunca tinha visto naquele serviço. Com muito cuidado ajudou-me a sentar na cama e apresentou-se. Trazia com ela dois panfletos informativos e um caderno onde apontava as minhas respostas a algumas perguntas que ela, com toda a simpatia, me ia fazendo. No fim perguntou-me a que horas a minha mãe me ia visitar nesse dia, e eu disse que ela chegava sempre por volta da uma da tarde. Depois de apontar a minha resposta no caderno, pousou os panfletos na minha cama e disse: "Vanda, já te disseram o que tens aí no lado direito da tua barriga?". Aproveitei o momento e a pergunta para mostrar delicadamente o meu desagrado quanto ao facto de, passados 5 dias de internamento, ainda ninguém me ter dito nada sobre a minha operação ou sobre a montanha de máquinas, fios e ligaduras que andavam atrás de mim por tudo o que era lado. A enfermeira, muito sorridente, continuou: "Não te preocupes, hoje vais saber tudo. Vanda vou-te deixar aqui estas brochuras. É importante que as leias. Quando a tua mãe chegar eu volto aqui para vos levar ali para o meu gabinete para estarmos mais à vontade, está bem?". Eu aprovei a ideia, despedi-me dela e esperei ansiosamente pela hora das visitas. 

A minha mãe nunca se atrasava. Naquele dia perdeu o autocarro e atrasou-se meia-hora. Quando chegou pedi que fosse avisar a senhora que estava ao balcão, na entrada do serviço e, passados dois minutos, a tal enfermeira simpática já estava ao pé de nós. Levou-nos para uma sala que ficava dentro do serviço. Tinha uma maca no meio, uma secretária de madeira antiga e um armário gigante que ocupava toda a parede do fundo. Haviam também 3 balanças e uma espécie de bidé alto com rodas e um lavatório. A primeira coisa que me perguntou foi se eu tinha lido os panfletos que tinha deixado comigo e eu respondi que sim, porém não os tinha entendido completamente. Ela disse que não havia problema e pediu que me deitasse na maca. Depois disse: "Eu vou explicar-te tudo enquanto vou tirando essa ligadura que tens na barriga. Não estejas nervosa, foca-te apenas naquilo que eu te vou dizer e não levantes a cabeça" e, com muito custo, assim fiz. Ela começou por dizer que a operação tinha sido bastante longa mas que, segundo os relatórios que estavam no meu processo, tinha corrido tudo bem. Depois fez-me uma breve explicação sobre o que tinha exatamente acontecido: que o meu intestino tinha rasgado e que a inflamação era enorme e tiveram de cortar exatamente 21 centímetros de intestino inflamado. Enquanto ela falava eu conseguia sentir a ligadura a sair cuidadosamente da minha barriga. Até aquele exato momento eu sentia-me tranquila e tentava absorver tudo o que ela dizia. Quando a ligadura saiu totalmente senti uma espécie de 'peso' no lado direito da minha barriga. A enfermeira pediu-me para me sentar com cuidado e para manter a calma. A minha primeira reação foi olhar-lhe nos olhos, apenas para não ter o impulso de olhar para baixo. Ela deu-me a mão e, com toda a delicadeza que lhe era naturalmente característica, disse: "O teu intestino precisa de uma espécie de 'descanso'. E para que o intestino possa descansar vais ter de andar com este saquinho durante alguns meses" ... olhei para baixo e, naquele momento, deixei completamente de ouvir. Um misto de emoções atingiram-me como se fossem balas. "O que é que me fizeram?" pensava eu enquanto as lágrimas escorriam pela minha cara. Vi um saco transparente, do tamanho mais ou menos de uma mão, colado a uma espécie de 'placa' que, por sua vez, estava colada à minha pele. Dentro dele conseguia ver o meu intestino. Assim, sem mais nem menos: um buraco na minha barriga de onde saia cerca de 6 centímetros de intestino. Do meu intestino. Ao lado, mais precisamente desde o umbigo à zona pélvica, conseguia ver os mais de 30 pontos feitos na operação (sim, a minha barriga parecia literalmente a cara do Frankenstein). Eu chorava compulsivamente. Não me recordo de todas as coisas que a enfermeira tentou fazer para me acalmar. Se houve um momento em que me senti completamente em estado de choque, absolutamente desamparada ... sem dúvida que foi aquele. Ninguém está preparado para uma coisa daquelas, muito menos uma miúda de 21 anos. E posso-vos dizer que, ao longo de toda esta aventura, esta foi uma das únicas vezes que chorei.





Não foi fácil digerir aquilo. Aliás, até aquele preciso momento nunca imaginei sequer que fosse humanamente possível viver com o intestino a sair-nos literalmente da barriga. Nem da barriga nem de outro lado qualquer. Se por acaso aquilo tivesse sido apenas um sonho eu batia palminhas à minha enorme imaginação. Mas a verdade é que mais real que aquilo não podia haver, e depressa percebi que tinha uma obrigação para comigo própria: a de ser forte. Perguntei à enfermeira mais de dez vezes "mas é mesmo só 6 meses não é?", ao que ela respondia que sim, com uma paciência de santa inabalável. Admirei muito a maneira como ela conduziu toda aquela situação delicada, e admirei ainda mais quando me perguntou, numa tentativa de amenizar o ambiente, se eu queria dar um 'nome' ao meu estoma (sim, ter o intestino para fora tem um nome científico). E foi assim que batizei os 6 centímetros do meu intestino que vieram ver a luz do dia durante 6 meses de 'ranhoso'. Entre lágrimas, nervos, choque e mais lágrimas, dar um nome parvalhão ao meu estoma pareceu-me muito bem. Aliás pareceu-me perfeito.

Na hora seguinte foi-me dada uma espécie de 'aula' sobre como tinha de tratar do ranhoso em casa. Depressa percebi que é como acabar de ter um filho: despejar sacos, tirar a placa e substituir por outra, medir o estoma, colar a placa, trocar o saco e limpar o 'ranhoso' . Tudo isto de 3 em 3 dias, sem falhar. Fiz tudo isto a primeira vez com a enfermeira, passo a passo, sem deixar escapar qualquer pormenor. Tive de lutar contra vários bloqueios que iam surgindo na minha cabeça, como o nojo em tocar no meu próprio intestino por exemplo, bloqueio esse que tive de ultrapassar em 2 segundos e meio. Eram quase 4 da tarde quando voltei para a minha cama, carregada com um mala dada pela enfermeira com tudo aquilo que eu precisava para cuidar do 'meu ranhoso' sozinha. 

O que se passou naquela sala foi bastante desgastante psicologicamente. Eu tinha 21 anos, até ali eu era uma rapariga que se achava inquebrável. Mas naquele momento senti-me como se tivesse um limite. Na verdade todos nós temos um, mas só nos confrontamos com ele quando chegamos a uma certa idade. Não é suposto uma miúda de 21 anos, com toda uma vida pela frente, ter de dar de caras com a noção nua e crua de que a vida tem um prazo de validade e que nós, seres humanos, somos apenas feitos de carne e osso. Os 6 meses que passei com o estoma foram os piores 6 meses da minha vida, e digo isto com toda a convicção. Não que não fosse minimamente suportável andar com o saco pendurado na barriga, mas condicionou imenso a minha vida: não podia sair durante muitas horas seguidas de casa; tinha de ter imenso cuidado com a placa, qualquer movimento brusco podia descolá-la da barriga; tinha de usar roupas largas para que o saco não se nota-se; tinha de ir imensas vezes ao wc despejar o saco; não podia andar em multidões com medo que alguém fosse contra a minha barriga, enfim ... é como ter uma pequena bomba-relógio colada a mim. A minha vida mudou radicalmente nesse período de tempo e eu mal podia esperar que passassem os 6 meses para poder voltar a ser 'normal' de novo ... ou pelo menos sentir-me como tal.


(PS: Continuação aquil)

19 de janeiro de 2017

Afinal o que é Doença de Crohn? (PARTE 2)

" ... Quando estão para sair, eu pergunto: "Sr. Doutor, mas afinal o que é que eu tenho?". E foi neste dia que eu soube. "Minha querida, tens uma doença que se chama Doença de Crohn que é no intestino. Mas daqui a uns dias vais ter alta e vais ser seguida por um médico que te vai explicar tudo. Vai correr tudo bem!". Tomara eu que tivesse sido tão simples quanto isto! ... "


(ps: primeira parte para ler --> aqui)



Dois dias depois de ter alta, conheci o Dt. Jaime Ramos. "Temos aqui uma bela menina", disse ele a primeira vez que entrei no consultório, e escusado será dizer que simpatizei logo com ele. Ele fez-me imensas perguntas, perguntas que nunca nenhum outro médico me tinha feito antes e que teriam sido fundamentais para perceberem o que se estava a passar comigo. No fim de um longo questionário, pegou numa folha branca e numa caneta, desenhou uma espécie de intestino e disse: "bom, básicamente o Crohn é uma bactéria que se aloja no intestino. Não se sabe bem ainda através de que meio este tipo de bactéria entra no organismo, mas a causa mais provável é que seja através da alimentação. O que acontece é que o intestino cria inflamações e lesões e são essas lesões que causam dores agudas e bastante perda de peso e falta de apetite" ... eu ouvia-o atentamente e ele prosseguiu enquanto fazia uns rabiscos na folha: "o que vamos fazer Vanda é tomar uns anti-inflamatórios fortes durante 3 semanas e fazer uma dieta rigorosa. Este tratamento não vai resolver o problema, mas vamos tentar estabilizar ... o Crohn não tem cura". Não vou mentir e dizer que era novidade para mim, porque na verdade não era. Eu própria fiz a minha pesquisa sobre o que é isto do 'Crohn' e cedo percebi que era algo com o qual eu tinha de aprender a viver o resto da minha vida. Acho que foi o facto de eu ter esta informação desde o início que me permitiu ficar com os pés bem assentes na terra, aceitar o que estava a acontecer comigo e seguir em frente. Senti-me ainda melhor quando descobri que o Dt. Jaime é o maior especialista em doenças como a minha no nosso país. 



Desde 10 de Novembro de 2013, dia em que tive alta da minha primeira operação, até ao mês de Dezembro foi um pulo. Talvez por me sentir como não me sentira há bastante tempo: normal, sem dores. Segui sempre à risca as recomendações do médico: nada de fritos, nada de molhos, nada de gorduras. Só Deus sabe o que me custou não poder comer o mesmo que os meus pais e irmãos à mesa. E, não sei como nem porquê, no dia 11 de Dezembro voltei ao mesmo: náuseas, vómitos, dores. Tinha recomendações do Dt. Jaime para, caso acontecesse o que estava precisamente a acontecer naquele momento, ir ter com ele ao hospital e não ir para as urgências. Assim fiz e, quando dei por mim, horas depois estava novamente internada. "Vamos começar um tratamento mais forte, e para isso precisas de cá estar uns dias para vermos se fazes alergia" ... uns dias ... 10 dias mais precisamente, quase quase em risco de passar o Natal de 2013 no hospital, longe da minha família, e não havia nada que me pudesse entristecer mais naquela altura. É por isto que acredito que Natal também significa esperança: no dia 21 tive alta e passei um dos melhores natais da minha vida (apesar de não poder comer quase nada, o que foi como ir ao inferno e voltar umas mil vezes). Fui para casa com bastante medicação para tomar e isso dava comigo em louca. Eu detestava (e detesto) tomar comprimidos, e foi mesmo com muita força de vontade que eu os tomava a todos religiosamente, a horas certas. Queria ficar melhor e este pensamento para mim era como um ponto final gigante: eu não só queria como tinha! Mas a demora em diagnosticar a minha doença deixou graves mazelas. A doença teve espaço e tempo para progredir o suficiente para no início de 2014 'rasgar-me' o intestino e levar-me de novo para o hospital com uma pulseira "à Benfica" no pulso e dores que, numa escala de 0 a 10, eram, à vontade, um 11 autêntico. Ninguém faz ideia, ou sonha sequer, o que eu sofri naquele dia. Enquanto esperava para ser operada, deitada numa maca nas urgências do hospital, imaginava-me com uma faca na mão, prontinha para a espetar na barriga. Qualquer dor que pudesse imaginar naquele momento, para mim, seria melhor que aquela que estava realmente a sentir. As pessoas falam em coisas insuportáveis sem saberem em concreto o que é algo verdadeiramente insuportável. Eu senti coisas absolutamente insuportáveis naquele dia, e por muito que tente descrever, simplesmente não consigo. Fui operada de urgência por volta das cinco da tarde e voltei a acordar apenas no dia seguinte, por volta da mesma hora. Sim, foi uma operação longa e complicada, e sim, foram 24 horas a dormir, com 'dose' de anestesia para cavalo no bucho, sem saber o que ia encontrar quando acordasse.

Sabem aquela parte que aparece imenso nos episódios da série 'Criminal Minds', em que a vitima acorda numa maca, num completo cenário de filme de terror? Foi o meu primeiro pensamento quando acordei: "ok, estou dentro de um episódio de Mentes Criminosas!". A primeira coisa que me lembro de ver foi a minha mão. Tinha uma ligadura enorme e três tubos a sair de dentro do penso. Mil e um cenários absolutamente parvos me passaram pela cabeça, tais como me terem partido a mão na operação, ou simplesmente uma serra daquelas dos filmes do Saw ter-me cortado a mão 'sem querer'. Mas depressa me distraí com as três máquinas que estavam à volta da minha cama, cada uma delas a fazer um diferente tipo de 'pii'. À medida que ia recuperando todos os meus sentidos, ia percorrendo o meu corpo com as mãos até chegar à minha barriga. Senti uma ligadura à volta da minha cintura, assim como a minha barriga super inchada. Conseguia sentir com a ponta dos dedos os agrafos que iam desde o umbigo à zona abdominal. Senti também uma espécie de 'saco' preso ao lado direito da ligadura. Decidi espontaneamente não pensar demasiado naquilo tudo para não entrar em choque. Acho que foi exatamente este pensamento que, em várias situações desta enorme história, me salvou em termos psicológicos: o tentar não pensar demasiado nas coisas, o que era, como ia correr, o que ia acontecer. Os pensamentos são demasiado poderosos e facilmente moldam aquilo que temos dentro da nossa cabeça. Eu não deixei que isso me acontecesse e foi, sem dúvida, a melhor coisa que eu fiz por mim própria. 

Os primeiros três dias foram bastante sofríveis: não conseguia andar, não podia comer nem beber nada, não podia ir ao wc. Senti na pele o que é depender a sério de alguém para as coisas mais básicas e pessoais que temos na nossa vida. Quando me ajudaram a levantar pela primeira vez as pernas não correspondiam e eu não conseguia andar quatro passos sem ter de parar para descansar. Sentia-me como se tivesse sido atropelada por um tanque gigante e por um camião ao mesmo tempo. Pediam-me paciência mas eu tenho tudo menos paciência para dar e vender, porém sabia que não tinha escolha. Fui bastante mimada por todas as enfermeiras e auxiliares e isso, por breves momentos, deixava-me bastante mais tranquila. Adorava receber visitas. De noite, quando não conseguia dormir, pensava nas pessoas que gostaria que me fossem visitar. Dei por mim a pensar em pessoas que eu deixei para trás, que não via à imenso tempo ou pessoas pelas quais eu, antes daquele momento, sentia uma enorme mágoa. Queria-as todas ali, para me fazerem rir, para me darem forças. Tudo passou a resumir-se aquele momento, todas as mágoas tinham desaparecido. É como se tivesse levado uma chapada e tivesse percebido o quanto a vida é frágil e preciosa ao mesmo tempo, assim como no quanto desvalorizamos as coisas boas que aconteceram na nossa vida para valorizar as más. No fim acabamos numa cama de hospital e tudo se resume a isso. É uma parvoíce, não é? Porém foram poucos os que lá estiveram para mim e isso deu-me uma enorme lição de vida.

Foram dias muito cansativos e, acima de tudo, carregados de ansiedade. A verdade é que ninguém me prestava esclarecimento algum sobre a operação, sobre o que aconteceu, sobre o que escondia aquela enorme ligadura e aquele saco que estavam na minha barriga. Na altura não percebi o porquê de tantas respostas evasivas às minhas perguntas ... hoje percebo. 

(PS: Continuação aqui)